Pessoas digitais seriam mais importantes ainda (Introdução)

O século mais importante

Esta é a terceira postagem de uma série que apresenta a minha visão de que poderíamos estar no século mais importante de todos os tempos. (Aqui está o roteiro para esta série.)

  • O primeiro artigo desta série discute a nossa era incomum, que pode estar muito próxima da transição entre uma civilização terráquea e uma civilização estável em toda a galáxia.
  • Este artigo discute “pessoas digitais”, uma categoria de tecnologia que poderia ser chave para esta transição, e que teria impactos ainda maiores do que o hipotético Duplicador discutido anteriormente.
  • Muitas das ideias discutidas aqui aparecem em obras de ficção científica ou de não-ficção especulativa, mas não conheço outro artigo que exponha, brevemente, a ideia básica de pessoas digitais e as principais razões pelas quais um mundo de pessoas digitais seria tão diferente do mundo atual.
  • A ideia das pessoas digitais fornece uma maneira concreta de imaginar como o tipo certo de tecnologia (que acredito ser quase certamente viável) poderia mudar o mundo radicalmente, de modo que “os humanos como os conhecemos” não seriam mais a força principal dos eventos mundiais

Será importante ter esse cenário em mente, porque argumentarei que os avanços na Inteligência Artificial neste século poderiam levar rapidamente ao desenvolvimento de pessoas digitais ou a uma tecnologia importante semelhante.

O potencial transformador de algo como pessoas digitais, combinado com a rapidez com que a IA poderia dar a isso corrobora a ideia de que poderíamos estar no século mais importante.

Introdução

Anteriormente, escrevi:

Quando algumas pessoas imaginam o futuro, elas imaginam o tipo de coisa que você vê nos filmes de ficção científica. Mas esses futuros de ficção científica parecem muito modestos em comparação com o futuro que eu vislumbro.

O futuro que imagino é enormemente maior, mais rápido, mais estranho e muito, muito melhor ou muito, muito pior comparado ao dia de hoje. Ele também chegará potencialmente muito mais cedo do que os futuros da ficção científica: acredito que tecnologias específicas e aparentemente alcançáveis poderiam nos levar até esse futuro rapidamente.

Este artigo é sobre pessoas digitais, um exemplo24 de tecnologia que poderia nos conduzir a um futuro extremamente grande, rápido e estranho.

Para ter uma ideia do que seriam as pessoas digitais, imagine uma simulação computacional de uma pessoa específica, num ambiente virtual. Por exemplo, uma simulação de você mesmo, que reage a todos os “eventos virtuais” — fome virtual, clima virtual, um computador virtual com uma caixa de entrada de e-mail — exatamente como você o faria. Como no filme Matrix (Veja a nota de rodapé.)25 Explico isso mais detalhadamente na seção de perguntas frequentes.

O cenário central em que vou me concentrar é o de pessoas digitais que se parecem com nós mesmos, talvez criadas por meio de upload de mentes (simulação de cérebros humanos). No entanto, pode-se também imaginar entidades diferentes de nós de várias maneiras, mas que ainda podem ser consideradas como “descendentes” da humanidade; essas também seriam pessoas digitais. Mais sobre a minha escolha de termos nas Perguntas Frequentes.

A cultura popular sobre esse tipo de tópico tende a se concentrar na perspectiva da imortalidade digital: pessoas evitando a morte assumindo uma forma digital, que pode ser copiada da mesma forma que você faz backup de seus dados. Mas considero que isso é pouco em comparação com outros impactos potenciais das pessoas digitais, em particular:

  • Produtividade. As pessoas digitais poderiam ser copiadas, assim como podemos facilmente fazer cópias de qualquer software hoje. Elas também poderiam ter uma velocidade de processamento mental muito mais rápida do que a dos humanos. Por causa disso, as pessoas digitais poderiam ter efeitos comparáveis aos do Duplicador, mas mais ainda: elas poderiam impulsionar níveis sem precedentes, na história ou em filmes de ficção científica, de crescimento econômico e produtividade.
  • Ciências sociais. Hoje vemos muito progresso na compreensão das leis científicas e no desenvolvimento de novas tecnologias interessantes, mas não tanto progresso na compreensão da natureza humana e do comportamento humano. Pessoas digitais mudariam fundamentalmente essa dinâmica: as pessoas poderiam fazer cópias de si mesmas (incluindo cópias aceleradas e temporárias) para explorar como diferentes escolhas, estilos de vida e ambientes as afetariam. A comparação de cópias seria instrutiva de uma forma que a ciência social atual raramente é.
  • Controle do ambiente. As pessoas digitais experimentariam qualquer mundo que elas (ou o controlador de seu ambiente virtual) quisessem. Supondo que as pessoas digitais teriam uma experiência consciente verdadeira (uma suposição discutida na seção de Perguntas Frequentes), isso poderia ser algo bom; deveria ser possível eliminar doenças, pobreza material e violência não consensual para pessoas digitais). Ou, também, poderia ser algo ruim; se os direitos humanos não forem protegidos, pessoas digitais poderiam estar sujeitas a níveis assustadores de controle).
  • Expansão espacial. A população de pessoas digitais poderia se tornar incrivelmente grande, e os computadores que as executassem poderiam estar distribuídos por toda a nossa galáxia e além. As pessoas digitais poderiam existir em qualquer lugar onde os computadores pudessem funcionar — assim, viver em assentamentos espaciais poderia ser menos difícil para as pessoas digitais do que para os humanos biológicos.

Aprisionamento/Lock-in. No mundo de hoje, estamos acostumados com a ideia de que o futuro é imprevisível e incontrolável. Regimes políticos, ideologias e culturas mudam e evoluem. Mas uma comunidade, cidade ou nação de pessoas digitais poderia ser muito mais estável.

  • Pessoas digitais não precisariam morrer ou envelhecer.
  • Quem criasse um “ambiente virtual” contendo uma comunidade de pessoas digitais poderia ter um controle bastante duradouro sobre como seria essa comunidade. Por exemplo, elas poderiam criar um software para redefinir a comunidade (tanto o ambiente virtual quanto as pessoas existentes nele) para um estado anterior se certas coisas mudassem — como quem estivesse no poder ou qual religião fosse dominante.
  • Considero isso um pensamento perturbador, pois poderia permitir um autoritarismo duradouro, embora também pudesse permitir coisas como a proteção permanente de determinados direitos humanos.

Acho que esses efeitos (elaborados abaixo) poderiam ser uma coisa ótima ou péssima. Dependendo de como fossem os primeiros anos com as pessoas digitais, isso poderia determinar irreversivelmente como seriam esses efeitos.

Acho que consequências semelhantes surgiriam de qualquer tecnologia que permitisse

  1. o controle extremo sobre nossas experiências e ambiente; (b) a duplicação de mentes humanas.

Isso significa que existem potencialmente muitas maneiras do futuro se tornar tão alucinante quanto o que esboço aqui. Discuto pessoas digitais porque isso nos fornece uma maneira particularmente fácil de imaginar as consequências de (a) e (b): trata-se essencialmente de transferir o alicerce mais importante do nosso mundo (mentes humanas) para um domínio (software) onde estamos acostumados com a ideia de ter um enorme controle para programar qualquer comportamento que quisermos.

Grande parte deste artigo é inspirado em The age of Em (A era de Em), um livro incomum e fascinante. Ele tenta descrever um mundo hipotético de pessoas digitais (especificamente, upload de mentes) com muitos detalhes, mas (ao contrário da ficção científica) também visa a precisão preditiva em vez do entretenimento. 

Em muitas partes do livro, acho isso excessivamente específico e, no geral, não espero que o mundo que ele descreve acabe tendo muito em comum com um mundo real repleto de pessoas digitais. No entanto, ele tem várias seções que, a meu ver, ilustram o quão poderosa e radical uma tecnologia como as pessoas digitais poderia ser.

Abaixo:

  • Descreverei a ideia básica de pessoas digitais, com links com a seção de Perguntas Frequentes sobre a ideia.
  • Examinarei as possíveis implicações listadas acima sobre as pessoas digitais.

Este é um artigo que pessoas diferentes podem querer ler em ordens diferentes.

Aqui está um guia geral para o artigo e a seção de Perguntas Frequentes:

 O século mais importante

Este artigo se concentra em como as pessoas digitais poderiam mudar o mundo. Presumirei principalmente que as pessoas digitais são como nós, exceto que podem ser facilmente copiadas, executadas em velocidades diferentes e incorporadas em ambientes virtuais. Em particular, suporei que as pessoas digitais são conscientes, têm direitos humanos e podem fazer a maioria das coisas que os humanos podem, inclusive interagir com o mundo real. Acredito que muitos leitores terão problemas para se envolver com isso até que tenham mais respostas para algumas perguntas básicas sobre as pessoas digitais. Portanto, incentivo os leitores a clicar em quaisquer perguntas que pareçam úteis na seção de Perguntas Frequentes, ou apenas leiam a seção diretamente. Se você estiver lendo a versão “e-book” ou “PDF consolidado” desta série, a seção de Perguntas Frequentes será a próxima seção, seguida pelo restante deste artigo. Provavelmente faria sentido dar uma olhada no índice da seção e depois seguir adiante, dependendo se alguma das perguntas te parecer interessante ou importante.

Notas

24O melhor exemplo em que posso pensar, mas certamente não é o único.

25O filme Matrix oferece uma intuição decente para a ideia, com sua realidade virtual totalmente imersiva, mas, ao contrário dos heróis de Matrix, uma pessoa digital não precisa estar conectada a nenhuma pessoa física — elas podem existir como software puro. Os agentes são mais parecidos com pessoas digitais do que os heróis. De fato, um deles copia a si mesmo repetidamente.

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